No último semestre da
minha graduação, uma das professoras que foi referência para mim durante todo o
curso, disse uma frase que só fui entender após alguns anos, apesar de já
lecionar há desde o primeiro período: “Ensinarão melhor quando ouvir mais seus
alunos”.
Confesso que fiquei
intrigado no momento que ela falou e sua fala gerou uma discussão entre nós
alunos, mas só fui realmente entender alguns anos depois.
Um fator importante
na aulas de todos os componentes curriculares, inclusive nas de matemática, é a
comunicação e a linguagem utilizada para efetivá-la. Muitas vezes a linguagem
adotada por professores pode contribuir para dificultar o entendimento e a
compreensão de diversos assuntos. A seguir, ilustrarei alguns exemplos reais
que vivenciei no meu percurso relacionados à situações em que a linguagem de
fato comprometeu o aprendizado.
Exemplo 1: Recentemente,
uma colega professora me procurou para ajudá-la em uma situação com um dos seus
alunos do 3º ano que, segundo ela sabia somar corretamente e de uma hora para
outra estava errando as adições. Pedi a ela que trouxesse uma dessas adições
correta e outra errada para eu analisar. As operações que estavam corretas eram
adições sem reagrupamento ou reserva e as que estavam incorretas eram com
reagrupamento. Uma das operações erradas é representada a seguir:
45
+
17 .
89
Ao analisar a
operação percebi o que estava errado e como o aluno pensou para operar desta
maneira. Orientei minha colega a pedir ao aluno que descrevesse como ele tinha
feito a conta. A explicação do aluno foi: “ tia, você disse que na casinha das
unidades só cabe até 9, o que passar disso “sobe”. Então subi os 3 que
passou.”.
Exemplo 2: Era
professor dos 9º anos e o irmão de um dos meus alunos me pediu ajuda para
resolver uma equação do 1º grau cuja resposta que ele tinha encontrado não era
a mesma dada pelo livro.
Eis a equação e a resolução do aluno:
– 2X – 4 = 10 – 2X = 10 + 4 X = 14 + 2 X = 16.
Perguntei a ele por que fez assim e ele respondeu: “ meu
professor ensinou que se o número muda de lado muda o sinal.”
Exemplo 3: Às vezes o
erro é induzido, sem querer, pela linguagem escrita e não pelo linguagem
falada. Uma colega, certa vez, me pediu ajuda pois um número significativo de
alunos de uma de suas turmas de 6º ano estava com dificuldades em potenciação.
Ela me mostrou alguns cadernos e eles resolviam assim: 52 = 10,43 = 12. Percebi na hora que eles estavam multiplicando a base pelo
expoente, mas por que? Uma olhada rápida no caderno dos alunos notei que ao
introduzir este conceito o primeiro exemplo dado pela professora foi: 22 = 4
Exemplo 4: Eu estava
dando aula de equações do 2º grau para uma turma de 1ª série e passei vários
exercícios para os alunos resolverem na aula. Um dos exercícios era mais ou
menos assim: “ determine a soma e o produto das raízes da equação....”. Um dos
alunos levanta a mão e diz: “ Fábio, o exercício tal está errado.” Leio o
exercício com todo cuidado e respondo que não está. Ele me responde: “ Está
sim: se não existe raízes, como podemos soma-las ou multiplica-las?” Repassei
em minha mente todas as minhas aulas sobre o assunto e percebi que não tinha
sequer comentado sobre o conjunto dos números complexos e que no caso do
discriminante negativo (o famoso delta) não existem raízes reais mas sim complexas.
Os exemplos não param
por aí, contudo acredito que já é possível perceber a importância da linguagem
no processo de ensino e aprendizagem. Uma sugestão é que nós professores
devemos ouvir com mais atenção e frequência nossos alunos. Um simples “ por que
fez assim”, “ o que pensou ao resolver esse exercício” ou “ explique o que você
entendeu” nos ajudaria a entender como o aluno capta nossas mensagens. E isto
pode ser feito também por escrito, inclusive nos chats privados das salas de
aula virtuais.
Uma ação que tenho em
minhas aulas é assumir o papel do aluno na resolução de exercícios: o aluno
fala e eu vou executando os passos citados por ele para que ele possa “ver” o
que está falando.
E então professores:
já vivenciaram situações parecidas? Compartilhem conosco nos comentários e
vamos trocar experiências.

A linguagem é a ferramenta comum a todas as disciplinas, matemática inclusive. No entanto, a linguagem, parece ser negligência no meio "matemático". Se o conselho para o professor lecionar melhor o conselho para o aluno melhor aprender talvez seja: Converse com a questão.
ResponderExcluirEis um artigo no qual se aborda, em alguma medida, a linguagem fora dos meios acadêmicos como fator de aprendizado ou resistência.
https://www.conjur.com.br/2020-jan-13/milenio-artur-avila-ganhador-nobel-matematica