quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ENEM: quando uma prova tenta cumprir duas missões

 ENEM: quando uma prova tenta cumprir duas missões

Desde sua criação, em 1998, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) passou por transformações tão profundas que hoje podemos dizer que estamos diante de um exame completamente diferente daquele concebido há quase três décadas.

Inicialmente, sua finalidade era clara: avaliar o desenvolvimento das competências e habilidades dos estudantes ao final da educação básica. Tratava-se de uma avaliação em larga escala, cujo principal objetivo era produzir informações capazes de orientar políticas públicas e oferecer um retrato da qualidade do ensino médio brasileiro.

Naquela época, o ENEM estava longe de ser o sonho — ou o pesadelo — de milhões de estudantes. Os vestibulares tradicionais continuavam sendo o principal caminho para o ingresso nas universidades. Mas de repente, em 2009 veio a grande virada.

Com a reformulação promovida pelo Ministério da Educação, o ENEM deixou de ser apenas uma avaliação da educação básica para tornar-se o maior processo seletivo do país.

Sua nota passou a ser utilizada pelo Sistema de Seleção Unificada (SISU), pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), pelo Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e por centenas de instituições públicas e privadas.

A mudança democratizou o acesso ao ensino superior. Um estudante do interior do Amazonas passou a disputar uma vaga em uma universidade do Rio Grande do Sul utilizando uma única prova, algo impensável poucos anos antes. Poucas políticas públicas tiveram tamanho impacto na educação brasileira.

 

A mudança que aconteceu dentro da sala de aula

A transformação do ENEM não ocorreu apenas na forma de ingresso às universidades. Ela modificou, aos poucos, a maneira como muitos professores passaram a ensinar.

O exame consolidou uma proposta baseada em competências e habilidades, privilegiando situações-problema, interpretação de textos, análise de gráficos, leitura de tabelas e resolução de problemas contextualizados.

Na Matemática, isso significou uma ruptura importante. Não bastava mais decorar fórmulas. Tornou-se necessário compreender conceitos, interpretar situações reais, construir estratégias de resolução e justificar procedimentos.

Essa mudança dialoga diretamente com aquilo que hoje defendem os documentos curriculares nacionais: ensinar Matemática para desenvolver raciocínio, argumentação e tomada de decisões, e não apenas para reproduzir algoritmos. Naturalmente, isso exigiu das escolas uma revisão de práticas pedagógicas que, durante décadas, estiveram fortemente centradas na memorização.

Entretanto, existe uma questão que, na minha opinião, merece muito mais espaço no debate educacional é o que chamo de Paradoxo do ENEM.

 

O grande paradoxo do ENEM

O ENEM passou a exercer duas funções extremamente importantes — e, ao mesmo tempo, profundamente diferentes.

De um lado, continua sendo apresentado como uma avaliação capaz de produzir indicadores sobre a qualidade da educação básica brasileira. De outro, tornou-se o maior vestibular do país, responsável por selecionar estudantes para um número limitado de vagas nas universidades.

E é justamente aí que surge o paradoxo: avaliações de sistema e exames de seleção possuem objetivos distintos.

Uma avaliação educacional busca compreender como está o sistema de ensino. Seus resultados devem servir para orientar políticas públicas, identificar desigualdades, acompanhar aprendizagens e subsidiar decisões governamentais.

Já um vestibular tem outra finalidade: classificar candidatos e pronto. Enquanto uma avaliação procura representar a realidade, um processo seletivo precisa diferenciar indivíduos. E essas duas lógicas nem sempre caminham juntas.

Quando o resultado de uma prova define o acesso ao ensino superior, é natural que estudantes, famílias, escolas e redes de ensino concentrem seus esforços na obtenção da melhor nota possível. O exame passa a orientar currículos, metodologias e prioridades pedagógicas.

Nesse contexto, surge uma pergunta que considero legítima: É possível avaliar a qualidade da educação básica brasileira e, ao mesmo tempo, selecionar os melhores candidatos utilizando exatamente o mesmo instrumento?

Não tenho a pretensão de oferecer uma resposta definitiva e sim fomentar a reflexão. Por isso, acredito que esse seja um dos debates mais relevantes sobre avaliação educacional no Brasil.

 

TRI: um modelo sofisticado, mas pouco compreendido

Outro aspecto que merece reflexão é a utilização da Teoria da Resposta ao Item (TRI). Do ponto de vista científico, trata-se de um modelo extremamente consistente. Ela busca estimar a proficiência do participante considerando não apenas a quantidade de acertos, mas também o padrão de respostas e a dificuldade dos itens.

O problema não está na metodologia: Está na dificuldade de comunicação.

Grande parte dos estudantes — e até mesmo muitos professores — ainda não compreende por que duas pessoas com o mesmo número de acertos podem receber notas diferentes.

Essa falta de compreensão gera desconfiança, alimenta interpretações equivocadas e acaba afastando a sociedade de um debate que deveria ser amplamente conhecido.

Uma política pública dessa dimensão precisa ser também uma política de transparência.

O retorno dos rankings

Durante muitos anos, a divulgação dos resultados do ENEM por escola foi reduzida justamente porque os chamados rankings passaram a receber inúmeras críticas.

Comparar escolas apenas pela média obtida em uma prova ignora fatores fundamentais, como o contexto socioeconômico dos estudantes, a infraestrutura disponível, a permanência escolar, o perfil da comunidade atendida e o projeto pedagógico de cada instituição.

Na prática, escolas inseridas em realidades completamente diferentes eram colocadas lado a lado em uma mesma lista, como se enfrentassem as mesmas condições.

Nos últimos anos, entretanto, o cenário voltou a mudar: com a recente divulgação dos microdados e a disponibilização dos resultados por escola, veículos de comunicação e plataformas especializadas passaram novamente a elaborar rankings do ENEM.

Não sou contra à transparência: dados públicos são essenciais para pesquisadores, gestores e para toda a sociedade. O problema começa quando um conjunto extremamente complexo de informações é reduzido a um único número ou a uma posição em uma lista.

Uma boa escola não pode ser definida exclusivamente por sua média no ENEM. Da mesma forma, uma escola que aparece em posições inferiores não é necessariamente uma escola de baixa qualidade. Rankings podem despertar interesse, mas dificilmente conseguem explicar a complexidade da educação.

E uma outra pergunta que me faço sempre é: o ENEM ainda faz sentido? Na minha opinião, sim. Apesar de suas limitações, considero que o ENEM representa um dos maiores avanços da avaliação educacional brasileira nas últimas décadas.

Ele ampliou oportunidades de acesso ao ensino superior, estimulou mudanças importantes nas práticas pedagógicas e consolidou uma visão de aprendizagem que valoriza competências, interpretação e resolução de problemas.

Contudo, isso não significa que o exame seja perfeito. Justamente por ter um papel essencial no cenário educacional brasileiro e ser uma das avaliações educacionais mais importante do país, precisa estar permanentemente aberto ao aperfeiçoamento.

Discutir seus limites não é desqualificá-lo, mas sim reconhecer que nenhuma política pública é definitiva e que a educação exige reflexão constante. Talvez o maior mérito do ENEM não seja apenas selecionar estudantes para a universidade.

Talvez seu maior legado seja provocar um debate permanente sobre o que realmente significa aprender e, principalmente, sobre aquilo que decidimos avaliar quando falamos em qualidade da educação.

Como educador, continuo acreditando que esse debate é indispensável. Afinal, quando discutimos o ENEM, não estamos falando apenas de uma prova. Estamos discutindo o modelo de educação que desejamos construir para o Brasil.

 

Caminhos para o futuro: o imperativo da separação

Diante desse cenário, a mudança mais urgente torna-se evidente: o ENEM precisa escolher o seu verdadeiro papel. E, na minha visão, esse papel deveria ser o de uma autêntica avaliação da educação básica, deixando a seleção universitária para instrumentos desenhados especificamente para essa finalidade.

Olhar para o cenário internacional nos mostra que essa divisão é plenamente viável. Países com sistemas educacionais consolidados não utilizam a mesma régua para diagnosticar a escola e selecionar candidatos. Nos Estados Unidos, o NAEP afere a saúde do sistema de ensino enquanto exames como o SAT cumprem o papel seletivo. Na França, o Baccalauréat certifica o término da educação básica, deixando a disputa por vagas em cursos concorridos para processos específicos. Em ambos os casos, protege-se a função diagnóstica da rede sem estrangular o currículo escolar em função de uma disputa classificatória.

No Brasil, separar essas missões significaria permitir que o ENEM (ou o próprio SAEB ampliado) oferecesse diagnósticos honestos e sem a pressão de ranqueamento, orientando políticas públicas com a precisão que a TRI oferece. Em contrapartida, o acesso ao ensino superior ocorreria por meio de exames de seleção dedicados — integrados ao SISU, mas assumidamente classificatórios —, sem carregar o peso de ter que representar, sozinhos, a qualidade de toda a nossa educação básica.

Não se trata de desmantelar as conquistas dos últimos quinze anos, mas de reconhecer que tentar cumprir duas missões tão distintas com um único instrumento cobra um preço alto do nosso sistema de ensino. É hora de decidir se queremos uma prova para medir e melhorar a educação brasileira ou um instrumento para selecionar candidatos. Insistir que é possível fazer as duas coisas com a mesma eficácia é apenas adiar uma escolha que a própria realidade da sala de aula já nos mostra ser inevitável.

Não tenho ilusões de que essa mudança seria simples — ela mexe com uma engrenagem que hoje sustenta o acesso de milhões de jovens à universidade. Mas talvez seja exatamente por isso que o debate não pode mais esperar. Quinze anos depois da grande virada de 2009, é hora de perguntar, com a seriedade que o tema exige: queremos um exame que meça a educação brasileira, ou um exame que selecione os melhores candidatos? Continuar pensando que é possível fazer as duas coisas igualmente bem, com o mesmo instrumento, é adiar uma escolha que a própria prova, com seus paradoxos, já está nos mostrando ser inevitável.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Estar na escola significa aprender? O que os dados do Ideb, PISA e Inaf revelam sobre a nossa educação

 Estar na escola significa aprender? O que os dados do Ideb, PISA e Inaf revelam sobre a nossa educação

 

 

Nos últimos dias, muitos gestores têm comemorado os resultados do Ideb 2025, divulgados pelo MEC.

E eu acho que precisamos começar por uma coisa importante: sim, houve melhora. Os indicadores cresceram nas três etapas da Educação Básica:

·       Os anos iniciais passaram de 5,7 para 6,1;

·       Os anos finais, de 4,7 para 5,0;

·       E o Ensino Médio, de 4,1 para 4,3.

Então, temos motivos para comemorar. Mas, como professor que vive a realidade da educação pública, não consigo parar aí. Porque uma pergunta tem me incomodado muito: o que exatamente esses números estão nos dizendo sobre a educação brasileira?

Uma nota maior significa uma educação melhor? Essa é uma pergunta simples, porém a resposta não é.

O Ideb é um indicador importante. Ele nos permite acompanhar o desempenho das redes ao longo do tempo e combina os resultados do Saeb com os dados de rendimento escolar. Indicadores como ele são necessários, pois é preciso avaliar, ter dados. Com eles é possível saber onde estamos avançando e onde ainda temos problemas.

Assim, o problema não é avaliar: O problema é quando um indicador é comemorado e alardeado como uma espécie de “nota final” da educação. Porque uma escola não é uma nota, um município não é uma média e a educação de um país certamente não cabe em um único número.

Assim, é preciso olhar para outros indicadores, pois eles podem contar (e contam) uma história diferente. E um deles, que estou monitorando já há algum tempo, é o Inaf – Indicador de Analfabetismo Funcional.

O Inaf 2024 mostrou que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. O mesmo percentual de 2018. Porém, isso não significa que o Brasil não tenha avançado. Ao contrário.

Quando olhamos para a série histórica, percebemos que o país conseguiu reduzir bastante o analfabetismo funcional. Contudo, esse avanço perdeu força ao longo dos anos. E isso me faz pensar: entre os brasileiros que chegaram ao Ensino Médio, 17% ainda são considerados analfabetos funcionais.

Então, considero que a resposta à pergunta “estar na escola significa, necessariamente, aprender?” é fundamental, mesmo já sabendo que os dados mostram que não.

Porque outro indicador, o PISA (Programme for International Student Assessment, ou Programa Internacional de Avaliação de Alunos), conta a mesma história: em 2022, o Brasil alcançou 379 pontos em Matemática, enquanto a média dos países da OCDE foi de 472 pontos.

E não para por aí: apenas 27% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível básico de proficiência em Matemática, enquanto na OCDE, esse percentual chega a 69%.

Se você leu até aqui e está se perguntando se há uma contradição porque o Saeb melhora, o Ideb melhora, mas continuamos apresentando enormes desafios quando avaliamos a capacidade dos estudantes de utilizar conhecimentos matemáticos em situações mais amplas.

A resposta é: não necessariamente, pois são avaliações diferentes e avaliam populações diferentes, utilizando metodologias diferentes. E o principal é que procuram responder a perguntas diferentes.

Então é necessário olharmos para todas elas. E como professor de Matemática, quando vejo uma melhora na proficiência, fico feliz. Sim, fico de verdade, porém imediatamente penso em outra coisa: o que esse estudante consegue fazer com aquilo que aprendeu?

·       Interpreta e analisa um gráfico e/ou uma tabela?;

·       Compreende uma porcentagem presente em uma notícia?;

·       Avalia uma situação financeira?

·       Faz estimativas?;

·       Consegue Comparar? Argumentar?;

·       Resolve um problema que não aparece exatamente com o mesmo “jeitão” dos exercícios que fez na escola?.

 

Para mim, aprender Matemática é muito mais do que acertar uma questão em uma avaliação. É conseguir utilizar a Matemática para compreender o mundo.

E aqui está um ponto que considero fundamental.

·       Quando um município melhora seu resultado, devemos comemorar;

·       Quando uma escola melhora, devemos comemorar;

·       Quando um estudante aprende aquilo que antes não conseguia, devemos comemorar ainda mais.

Contudo, não devemos parar na comemoração: precisamos questionar e fazer perguntas:

·       O que melhorou?;

·       Quem melhorou?;

·       O quanto melhorou?

·       Quais habilidades avançaram?

·       Quais estudantes continuam muito abaixo?

·       A desigualdade diminuiu?

·       Os estudantes que apresentavam os piores resultados também avançaram?

·       E talvez a pergunta mais importante: esse conhecimento está sendo utilizado fora da escola?

 

Afinal, a educação brasileira melhorou? Sim e os dados do Saeb e do Ideb corroboram isso, evidenciando avanços.

Mas eu teria muito cuidado antes de transformar essa melhora em uma declaração de que “a educação brasileira está melhor”. Porque uma coisa é reconhecer um avanço e outra é dizer que o problema está resolvido. Pois não está.

Ainda temos desigualdades enormes, temos estudantes com aprendizagens muito abaixo do esperado, temos dificuldades importantes em Matemática, temos milhões de brasileiros com limitações para utilizar leitura, escrita e informações numéricas em situações do cotidiano.

E o próprio Inaf nos mostra que a escolarização, sozinha, não garante o desenvolvimento dessas competências. Acredito que estamos fazendo a pergunta errada. Perguntamos demais “qual foi a nota?” e de menos “o que nossos estudantes conseguem fazer?”.

Essa mudança de pergunta pode parecer pequena. Mas, para mim, ela muda completamente a nossa maneira de pensar a educação. Porque o objetivo da escola não deveria ser simplesmente melhorar um indicador ou passar na prova.

O indicador deve nos ajudar a descobrir se estamos conseguindo aquilo que realmente importa. Mas aí vem outra pergunta: O que realmente importa?

Que nossos estudantes consigam compreender, raciocinar, resolver problemas, interpretar informações, tomar decisões, argumentar, criar e utilizar o conhecimento adquirido para participar de maneira mais consciente da sociedade.

 

Resumindo, podemos e devemos comemorar avanços, mas sem parar de fazer perguntas. comemorar uma melhora não significa fechar os olhos para os problemas que permanecem. E criticar os limites de um indicador não significa ser contra a avaliação. Ao contrário. Significa levar a avaliação a sério.

Sendo professor, acredito que precisamos de menos disputa sobre quem tem a melhor nota e mais discussão sobre quem está conseguindo garantir aprendizagem para todos.

No final das contas, talvez essa seja essa a pergunta que realmente importa:

Os estudantes estão aprendendo mais?;

E, principalmente, estão conseguindo fazer mais com aquilo que aprenderam? É sobre isso que precisamos conversar. E você achando que aqui teria todas as respostas!!! Não, aqui você encontra mais pergunta

E você, como está interpretando os resultados do Ideb 2025?

 

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