Estar na escola significa aprender? O que os dados do Ideb, PISA e Inaf revelam sobre a nossa educação
Nos últimos
dias, muitos gestores têm comemorado os resultados do Ideb 2025, divulgados
pelo MEC.
E eu acho que
precisamos começar por uma coisa importante: sim, houve melhora. Os indicadores
cresceram nas três etapas da Educação Básica:
·
Os
anos iniciais passaram de 5,7 para 6,1;
·
Os
anos finais, de 4,7 para 5,0;
·
E o
Ensino Médio, de 4,1 para 4,3.
Então, temos
motivos para comemorar. Mas, como professor que vive a realidade da educação
pública, não consigo parar aí. Porque uma pergunta tem me incomodado muito: o
que exatamente esses números estão nos dizendo sobre a educação brasileira?
Uma nota maior
significa uma educação melhor? Essa é uma pergunta simples, porém a resposta
não é.
O Ideb é um
indicador importante. Ele nos permite acompanhar o desempenho das redes ao
longo do tempo e combina os resultados do Saeb com os dados de rendimento
escolar. Indicadores como ele são necessários, pois é preciso avaliar, ter
dados. Com eles é possível saber onde estamos avançando e onde ainda temos
problemas.
Assim, o problema
não é avaliar: O problema é quando um indicador é comemorado e alardeado como uma
espécie de “nota final” da educação. Porque uma escola não é uma nota, um
município não é uma média e a educação de um país certamente não cabe em um
único número.
Assim, é preciso
olhar para outros indicadores, pois eles podem contar (e contam) uma história
diferente. E um deles, que estou monitorando já há algum tempo, é o Inaf –
Indicador de Analfabetismo Funcional.
O Inaf 2024
mostrou que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. O
mesmo percentual de 2018. Porém, isso não significa que o Brasil não tenha
avançado. Ao contrário.
Quando olhamos
para a série histórica, percebemos que o país conseguiu reduzir bastante o
analfabetismo funcional. Contudo, esse avanço perdeu força ao longo dos anos. E
isso me faz pensar: entre os brasileiros que chegaram ao Ensino Médio, 17%
ainda são considerados analfabetos funcionais.
Então, considero
que a resposta à pergunta “estar na escola significa, necessariamente,
aprender?” é fundamental, mesmo já sabendo que os dados mostram que não.
Porque outro
indicador, o PISA (Programme for International Student Assessment, ou Programa
Internacional de Avaliação de Alunos), conta a mesma história: em 2022, o
Brasil alcançou 379 pontos em Matemática, enquanto a média dos países da OCDE
foi de 472 pontos.
E não para por
aí: apenas 27% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível básico
de proficiência em Matemática, enquanto na OCDE, esse percentual chega a 69%.
Se você leu até
aqui e está se perguntando se há uma contradição porque o Saeb melhora, o Ideb
melhora, mas continuamos apresentando enormes desafios quando avaliamos a
capacidade dos estudantes de utilizar conhecimentos matemáticos em situações
mais amplas.
A resposta é: não
necessariamente, pois são avaliações diferentes e avaliam populações diferentes,
utilizando metodologias diferentes. E o principal é que procuram responder a
perguntas diferentes.
Então é
necessário olharmos para todas elas. E como professor de Matemática, quando
vejo uma melhora na proficiência, fico feliz. Sim, fico de verdade, porém imediatamente
penso em outra coisa: o que esse estudante consegue fazer com aquilo que
aprendeu?
·
Interpreta
e analisa um gráfico e/ou uma tabela?;
·
Compreende
uma porcentagem presente em uma notícia?;
·
Avalia
uma situação financeira?
·
Faz
estimativas?;
·
Consegue
Comparar? Argumentar?;
·
Resolve
um problema que não aparece exatamente com o mesmo “jeitão” dos exercícios que
fez na escola?.
Para mim, aprender
Matemática é muito mais do que acertar uma questão em uma avaliação. É
conseguir utilizar a Matemática para compreender o mundo.
E aqui está um
ponto que considero fundamental.
·
Quando
um município melhora seu resultado, devemos comemorar;
·
Quando
uma escola melhora, devemos comemorar;
·
Quando
um estudante aprende aquilo que antes não conseguia, devemos comemorar ainda
mais.
Contudo, não
devemos parar na comemoração: precisamos questionar e fazer perguntas:
·
O
que melhorou?;
·
Quem
melhorou?;
·
O quanto
melhorou?
·
Quais
habilidades avançaram?
·
Quais
estudantes continuam muito abaixo?
·
A
desigualdade diminuiu?
·
Os
estudantes que apresentavam os piores resultados também avançaram?
·
E
talvez a pergunta mais importante: esse conhecimento está sendo utilizado fora
da escola?
Afinal, a
educação brasileira melhorou? Sim e os dados do Saeb e do Ideb corroboram isso,
evidenciando avanços.
Mas eu teria
muito cuidado antes de transformar essa melhora em uma declaração de que “a
educação brasileira está melhor”. Porque uma coisa é reconhecer um avanço e outra
é dizer que o problema está resolvido. Pois não está.
Ainda temos
desigualdades enormes, temos estudantes com aprendizagens muito abaixo do
esperado, temos dificuldades importantes em Matemática, temos milhões de
brasileiros com limitações para utilizar leitura, escrita e informações
numéricas em situações do cotidiano.
E o próprio
Inaf nos mostra que a escolarização, sozinha, não garante o desenvolvimento
dessas competências. Acredito que estamos fazendo a pergunta errada. Perguntamos
demais “qual foi a nota?” e de menos “o que nossos estudantes conseguem fazer?”.
Essa mudança de
pergunta pode parecer pequena. Mas, para mim, ela muda completamente a nossa
maneira de pensar a educação. Porque o objetivo da escola não deveria ser
simplesmente melhorar um indicador ou passar na prova.
O indicador
deve nos ajudar a descobrir se estamos conseguindo aquilo que realmente importa.
Mas aí vem outra pergunta: O que realmente importa?
Que nossos
estudantes consigam compreender, raciocinar, resolver problemas, interpretar
informações, tomar decisões, argumentar, criar e utilizar o conhecimento adquirido
para participar de maneira mais consciente da sociedade.
Resumindo,
podemos e devemos comemorar avanços, mas sem parar de fazer perguntas. comemorar
uma melhora não significa fechar os olhos para os problemas que permanecem. E
criticar os limites de um indicador não significa ser contra a avaliação. Ao contrário.
Significa levar a avaliação a sério.
Sendo professor,
acredito que precisamos de menos disputa sobre quem tem a melhor nota e mais
discussão sobre quem está conseguindo garantir aprendizagem para todos.
No final das
contas, talvez essa seja essa a pergunta que realmente importa:
Os estudantes
estão aprendendo mais?;
E,
principalmente, estão conseguindo fazer mais com aquilo que aprenderam? É sobre
isso que precisamos conversar. E você achando que aqui teria todas as respostas!!!
Não, aqui você encontra mais pergunta
E você, como
está interpretando os resultados do Ideb 2025?
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