quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Estar na escola significa aprender? O que os dados do Ideb, PISA e Inaf revelam sobre a nossa educação

 Estar na escola significa aprender? O que os dados do Ideb, PISA e Inaf revelam sobre a nossa educação

 

 

Nos últimos dias, muitos gestores têm comemorado os resultados do Ideb 2025, divulgados pelo MEC.

E eu acho que precisamos começar por uma coisa importante: sim, houve melhora. Os indicadores cresceram nas três etapas da Educação Básica:

·       Os anos iniciais passaram de 5,7 para 6,1;

·       Os anos finais, de 4,7 para 5,0;

·       E o Ensino Médio, de 4,1 para 4,3.

Então, temos motivos para comemorar. Mas, como professor que vive a realidade da educação pública, não consigo parar aí. Porque uma pergunta tem me incomodado muito: o que exatamente esses números estão nos dizendo sobre a educação brasileira?

Uma nota maior significa uma educação melhor? Essa é uma pergunta simples, porém a resposta não é.

O Ideb é um indicador importante. Ele nos permite acompanhar o desempenho das redes ao longo do tempo e combina os resultados do Saeb com os dados de rendimento escolar. Indicadores como ele são necessários, pois é preciso avaliar, ter dados. Com eles é possível saber onde estamos avançando e onde ainda temos problemas.

Assim, o problema não é avaliar: O problema é quando um indicador é comemorado e alardeado como uma espécie de “nota final” da educação. Porque uma escola não é uma nota, um município não é uma média e a educação de um país certamente não cabe em um único número.

Assim, é preciso olhar para outros indicadores, pois eles podem contar (e contam) uma história diferente. E um deles, que estou monitorando já há algum tempo, é o Inaf – Indicador de Analfabetismo Funcional.

O Inaf 2024 mostrou que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. O mesmo percentual de 2018. Porém, isso não significa que o Brasil não tenha avançado. Ao contrário.

Quando olhamos para a série histórica, percebemos que o país conseguiu reduzir bastante o analfabetismo funcional. Contudo, esse avanço perdeu força ao longo dos anos. E isso me faz pensar: entre os brasileiros que chegaram ao Ensino Médio, 17% ainda são considerados analfabetos funcionais.

Então, considero que a resposta à pergunta “estar na escola significa, necessariamente, aprender?” é fundamental, mesmo já sabendo que os dados mostram que não.

Porque outro indicador, o PISA (Programme for International Student Assessment, ou Programa Internacional de Avaliação de Alunos), conta a mesma história: em 2022, o Brasil alcançou 379 pontos em Matemática, enquanto a média dos países da OCDE foi de 472 pontos.

E não para por aí: apenas 27% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível básico de proficiência em Matemática, enquanto na OCDE, esse percentual chega a 69%.

Se você leu até aqui e está se perguntando se há uma contradição porque o Saeb melhora, o Ideb melhora, mas continuamos apresentando enormes desafios quando avaliamos a capacidade dos estudantes de utilizar conhecimentos matemáticos em situações mais amplas.

A resposta é: não necessariamente, pois são avaliações diferentes e avaliam populações diferentes, utilizando metodologias diferentes. E o principal é que procuram responder a perguntas diferentes.

Então é necessário olharmos para todas elas. E como professor de Matemática, quando vejo uma melhora na proficiência, fico feliz. Sim, fico de verdade, porém imediatamente penso em outra coisa: o que esse estudante consegue fazer com aquilo que aprendeu?

·       Interpreta e analisa um gráfico e/ou uma tabela?;

·       Compreende uma porcentagem presente em uma notícia?;

·       Avalia uma situação financeira?

·       Faz estimativas?;

·       Consegue Comparar? Argumentar?;

·       Resolve um problema que não aparece exatamente com o mesmo “jeitão” dos exercícios que fez na escola?.

 

Para mim, aprender Matemática é muito mais do que acertar uma questão em uma avaliação. É conseguir utilizar a Matemática para compreender o mundo.

E aqui está um ponto que considero fundamental.

·       Quando um município melhora seu resultado, devemos comemorar;

·       Quando uma escola melhora, devemos comemorar;

·       Quando um estudante aprende aquilo que antes não conseguia, devemos comemorar ainda mais.

Contudo, não devemos parar na comemoração: precisamos questionar e fazer perguntas:

·       O que melhorou?;

·       Quem melhorou?;

·       O quanto melhorou?

·       Quais habilidades avançaram?

·       Quais estudantes continuam muito abaixo?

·       A desigualdade diminuiu?

·       Os estudantes que apresentavam os piores resultados também avançaram?

·       E talvez a pergunta mais importante: esse conhecimento está sendo utilizado fora da escola?

 

Afinal, a educação brasileira melhorou? Sim e os dados do Saeb e do Ideb corroboram isso, evidenciando avanços.

Mas eu teria muito cuidado antes de transformar essa melhora em uma declaração de que “a educação brasileira está melhor”. Porque uma coisa é reconhecer um avanço e outra é dizer que o problema está resolvido. Pois não está.

Ainda temos desigualdades enormes, temos estudantes com aprendizagens muito abaixo do esperado, temos dificuldades importantes em Matemática, temos milhões de brasileiros com limitações para utilizar leitura, escrita e informações numéricas em situações do cotidiano.

E o próprio Inaf nos mostra que a escolarização, sozinha, não garante o desenvolvimento dessas competências. Acredito que estamos fazendo a pergunta errada. Perguntamos demais “qual foi a nota?” e de menos “o que nossos estudantes conseguem fazer?”.

Essa mudança de pergunta pode parecer pequena. Mas, para mim, ela muda completamente a nossa maneira de pensar a educação. Porque o objetivo da escola não deveria ser simplesmente melhorar um indicador ou passar na prova.

O indicador deve nos ajudar a descobrir se estamos conseguindo aquilo que realmente importa. Mas aí vem outra pergunta: O que realmente importa?

Que nossos estudantes consigam compreender, raciocinar, resolver problemas, interpretar informações, tomar decisões, argumentar, criar e utilizar o conhecimento adquirido para participar de maneira mais consciente da sociedade.

 

Resumindo, podemos e devemos comemorar avanços, mas sem parar de fazer perguntas. comemorar uma melhora não significa fechar os olhos para os problemas que permanecem. E criticar os limites de um indicador não significa ser contra a avaliação. Ao contrário. Significa levar a avaliação a sério.

Sendo professor, acredito que precisamos de menos disputa sobre quem tem a melhor nota e mais discussão sobre quem está conseguindo garantir aprendizagem para todos.

No final das contas, talvez essa seja essa a pergunta que realmente importa:

Os estudantes estão aprendendo mais?;

E, principalmente, estão conseguindo fazer mais com aquilo que aprenderam? É sobre isso que precisamos conversar. E você achando que aqui teria todas as respostas!!! Não, aqui você encontra mais pergunta

E você, como está interpretando os resultados do Ideb 2025?

 

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